"Regresso a casa.
Na quarta-feira parece que havia um jogo de futebol. “Portugal vai jogar!...” Dizia-me alguém com ar sério de que se tratava de coisa importante.
Não entendi a urgência da afirmação, mas quando ouvi o trânsito mais caótico que o usual, pelas seis da tarde, com o autocarro da Carris encravado nos carros em segunda fila, e as buzinas urgentes dos carros histéricos encurralados, percebi que andavam todos feitos baratas tontas a caminho das televisões.
Como tinha aulas ao fim do dia, só me despachei em Lisboa às 21.30H. Encontrei o parque de estacionamento quase vazio, e a rua, completamente deserta.
A cancela abriu para eu iniciar o regresso a casa, e de repente… senti aquele formigueiro do pé direito, aquela adrenalina a subir, e a mão nervosa a agarrar o volante. Vai ter que ser rallye…
Acelerei as rotações em ponto morto, ele está a responder bem, olhei em redor e não vi ninguém. O mostrador do VDO acabava em conta certa, no número 40. O relógio Casio Illuminator indica tempos certos de 21h30m, engato primeira e cá vai disto!
A rua é feita lançado, abrando ao fim e entro na avenida deserta atravessando um pouco os Camac para chiarem. Desvio para entrar na marginal e sigo direito ao CCB, com tudo muito vazio de tráfego. Segunda para 45, terceira para 80 e quarta chega aos 100 em 30 segundos.
Alguns plásticos ganham balanço lá de trás e vêm atrás de mim. Venham, venham, que isto está calculado.
Mantenho nos 100 frente aos Jerónimos e estou quase no radar de 50 do CCB. Agora é preciso arte. Deixo perder velocidade, e com dupla embraiagem passo para terceira, perdendo velocidade em busca dos 50. O truque é não tocar nos travões, pois assim não acende luzes para os outros e com sorte mando-os directo para debaixo do radar…
Mas o sacana percebeu no último instante, e foi vê-lo a travar numa nuvem de fumo mais adiante… Safaste-te malandro, mas já me pude rir.
Na recta do Dafundo, foi feita a fundo, com o plástico lá na minha frente, sem conseguir fugir. Se houver radar, o flash dispara primeiro nele.
Como não há quase ninguém, consigo usar as duas faixas nas curvas da Cruz Quebrada, enquanto o plástico acende luzes de travão e volta a ficar perto de mim… Parece ser um BMW 316, daqueles que agora só os ciganos usam, para aí de 1996.
Nos semáforos de velocidade do Mónaco, ele cai de novo no meu velho truque…
Ele vai adiante, à esquerda “na faixa dos homens” e segue bloqueado por um cliozinho branco guiado por um velho, que vai devagar e assustado para não disparar o vermelho dos semáforos.
Enquanto ele vai em cima do velho, de máximos acesos, eu vou longe cá atrás, sorrio e acelero na faixa direita, disparando imediatamente a luz vermelha. Com as contas certas aos tempos, quase em cima do semáforo, passo para a frente do velho ao mesmo tempo que sai luz verde, e ala!... Terceira a fundo e cá vai para 70, entra 4ª para os 100 e bingo!
O BMW entretanto livrou-se do velho e lá vem ele de novo, mas agora estou adiantado, e na faixa esquerda. Disparo propositadamente o vermelho seguinte e a fila à direita subdivide-se para trás de mim, bloqueando a passagem ao BMW.
Segurem-no aí que eu agora tenho pressa.
Olho os tempos e tenho 9h40m no pulso e 50 no VDO, portanto média directa de 60 km/h, 10 km em 10 minutos, a mesma de parte do troço de rallye da Noite da Serra de Sintra. Siga, que segue bem.
Dou gás nas curvas sexys de Caxias, passo a escola naútica a fundo, e antes de descer venhjo no retrovisor ao longe umas luzes fortes em máximos. Lá vem ele. Mas já é tarde, desvio para dentro de Oeiras e ele segue desvairado a direito. Tchau e desvaloriza-te à tua vontade…
Agora é sempre sem parar. Não há peões, não há autocarros, não há carros, tudo parece deserto e tenho a hipótese de bater recordes de regresso a casa. O “Expresso” curva, salta e pula nas lombas, parece que vai vivo, e sempre sem tocar no travão, para não gastar o material, lembra a sequência nas docas de Nicolas Cage ao volante da Eleonor. Rosna, desliza e passa o Arneiro, entra pelos bairros, não pára e segue em bom ritmo.
Depois Trajouce, rectas, desvios e a bela da “estrada do Meio”, cada curva, cada detalhe sabido de cor. Dou-lhe gás mas não consigo fazer o salto.
O fabuloso salto precisa pelo menos de 120-130 km/h em carocha, e isso não me é ali possível só com 34 hp.
Um 1303S talvez voasse, mas o meu não. Só dá para sentir aliviar as molas traseiras, fechar o camber antes de assentar de novo. Tem espaço suficiente e reconforta a alma.
Depois deixo abrandar sozinho para a “curva do Monas” e segue-se o bairro.
Lá dentro tem uma passagem de curva a 90 graus, que costuma ter areia suficiente e espaço para brilhar na noite. O local está iluminado, e por vezes estão lá um grupo de rapazes à conversa, que adoram ver o carocha passar. Não os deixo tristes e faço a curva para a esquerda com o volante para a direita e com o acelerador…
Brum, brum… E as rotações elevadas passam de terceira para segunda, pé direito ao fundo e cá vai… power slide de traseira, derivando na areia, dobra-se todo de rabo para a direita, alinha a frente com a saída, e rasga para sair com os assobios do pessoal no passeio.
Bip! Bip! E a buzina de Herbie despede-se de mais uma noite de glória.
Já falta pouco, acelero para deixar os cães todos do bairro doidos a ladrarem, acordando toda a gente. Só dormem quando eu dormir!
E pronto, mais um suave regresso: Olho o mostrador e fez 20 km em 23 minutos, média de 52,17 km/h.
Ou seja, se fosse um Rallye de Clássicos teria que ser assim sempre. Se houvesse ali um controle, ainda tinha 1 minuto livre antes de controlar ao minuto 24, para dar os 50 km/h certos da carta de prova. Seria o suficiente para limpar o vidro, e verificar, por exemplo, se mantinha todas as luzes operacionais, ou beber água. Para xixi já precisaria de 2 minutos, por isso teria que esperar por outra oportunidade.
A média usual anda actualmente muito puxada para os 50 em vez dos anteriores 45, por isso é preciso assapar e dar fogo no animal.
Assim, consigo treinar para rallyes de antigos no quotidiano, mantenho-me em forma, atento e perspicaz, paradoxalmente aumentando a segurança da condução, pois desatenção é igual a perigo.
Permite treinar o desafio da qualidade global, nas diversas vertentes que englobam a arte de bem conduzir, com estratégia, conhecimento do material, atenção aos outros concorrentes, percepção dos limites da via, avaliação do estado e circunstâncias do momento, numa interacção global que exige o máximo de nós.
Já na garagem, cheiro o motor e nada de anormal: ele gosta de desafios, e sente saudades de alguma prova, e de ter números colados na porta…
Sorrio ao deixar o carro. Amanhã há mais…"
texto por Miguel Brito ( o Guru )
Mais um delicioso relato do Guru. Podem seguir o tópico original: Expresso de Lordemão aqui.
Na quarta-feira parece que havia um jogo de futebol. “Portugal vai jogar!...” Dizia-me alguém com ar sério de que se tratava de coisa importante.
Não entendi a urgência da afirmação, mas quando ouvi o trânsito mais caótico que o usual, pelas seis da tarde, com o autocarro da Carris encravado nos carros em segunda fila, e as buzinas urgentes dos carros histéricos encurralados, percebi que andavam todos feitos baratas tontas a caminho das televisões.
Como tinha aulas ao fim do dia, só me despachei em Lisboa às 21.30H. Encontrei o parque de estacionamento quase vazio, e a rua, completamente deserta.
A cancela abriu para eu iniciar o regresso a casa, e de repente… senti aquele formigueiro do pé direito, aquela adrenalina a subir, e a mão nervosa a agarrar o volante. Vai ter que ser rallye…
Acelerei as rotações em ponto morto, ele está a responder bem, olhei em redor e não vi ninguém. O mostrador do VDO acabava em conta certa, no número 40. O relógio Casio Illuminator indica tempos certos de 21h30m, engato primeira e cá vai disto!
A rua é feita lançado, abrando ao fim e entro na avenida deserta atravessando um pouco os Camac para chiarem. Desvio para entrar na marginal e sigo direito ao CCB, com tudo muito vazio de tráfego. Segunda para 45, terceira para 80 e quarta chega aos 100 em 30 segundos.
Alguns plásticos ganham balanço lá de trás e vêm atrás de mim. Venham, venham, que isto está calculado.
Mantenho nos 100 frente aos Jerónimos e estou quase no radar de 50 do CCB. Agora é preciso arte. Deixo perder velocidade, e com dupla embraiagem passo para terceira, perdendo velocidade em busca dos 50. O truque é não tocar nos travões, pois assim não acende luzes para os outros e com sorte mando-os directo para debaixo do radar…
Mas o sacana percebeu no último instante, e foi vê-lo a travar numa nuvem de fumo mais adiante… Safaste-te malandro, mas já me pude rir.
Na recta do Dafundo, foi feita a fundo, com o plástico lá na minha frente, sem conseguir fugir. Se houver radar, o flash dispara primeiro nele.
Como não há quase ninguém, consigo usar as duas faixas nas curvas da Cruz Quebrada, enquanto o plástico acende luzes de travão e volta a ficar perto de mim… Parece ser um BMW 316, daqueles que agora só os ciganos usam, para aí de 1996.
Nos semáforos de velocidade do Mónaco, ele cai de novo no meu velho truque…
Ele vai adiante, à esquerda “na faixa dos homens” e segue bloqueado por um cliozinho branco guiado por um velho, que vai devagar e assustado para não disparar o vermelho dos semáforos.
Enquanto ele vai em cima do velho, de máximos acesos, eu vou longe cá atrás, sorrio e acelero na faixa direita, disparando imediatamente a luz vermelha. Com as contas certas aos tempos, quase em cima do semáforo, passo para a frente do velho ao mesmo tempo que sai luz verde, e ala!... Terceira a fundo e cá vai para 70, entra 4ª para os 100 e bingo!
O BMW entretanto livrou-se do velho e lá vem ele de novo, mas agora estou adiantado, e na faixa esquerda. Disparo propositadamente o vermelho seguinte e a fila à direita subdivide-se para trás de mim, bloqueando a passagem ao BMW.
Segurem-no aí que eu agora tenho pressa.
Olho os tempos e tenho 9h40m no pulso e 50 no VDO, portanto média directa de 60 km/h, 10 km em 10 minutos, a mesma de parte do troço de rallye da Noite da Serra de Sintra. Siga, que segue bem.
Dou gás nas curvas sexys de Caxias, passo a escola naútica a fundo, e antes de descer venhjo no retrovisor ao longe umas luzes fortes em máximos. Lá vem ele. Mas já é tarde, desvio para dentro de Oeiras e ele segue desvairado a direito. Tchau e desvaloriza-te à tua vontade…
Agora é sempre sem parar. Não há peões, não há autocarros, não há carros, tudo parece deserto e tenho a hipótese de bater recordes de regresso a casa. O “Expresso” curva, salta e pula nas lombas, parece que vai vivo, e sempre sem tocar no travão, para não gastar o material, lembra a sequência nas docas de Nicolas Cage ao volante da Eleonor. Rosna, desliza e passa o Arneiro, entra pelos bairros, não pára e segue em bom ritmo.
Depois Trajouce, rectas, desvios e a bela da “estrada do Meio”, cada curva, cada detalhe sabido de cor. Dou-lhe gás mas não consigo fazer o salto.
O fabuloso salto precisa pelo menos de 120-130 km/h em carocha, e isso não me é ali possível só com 34 hp.
Um 1303S talvez voasse, mas o meu não. Só dá para sentir aliviar as molas traseiras, fechar o camber antes de assentar de novo. Tem espaço suficiente e reconforta a alma.
Depois deixo abrandar sozinho para a “curva do Monas” e segue-se o bairro.
Lá dentro tem uma passagem de curva a 90 graus, que costuma ter areia suficiente e espaço para brilhar na noite. O local está iluminado, e por vezes estão lá um grupo de rapazes à conversa, que adoram ver o carocha passar. Não os deixo tristes e faço a curva para a esquerda com o volante para a direita e com o acelerador…
Brum, brum… E as rotações elevadas passam de terceira para segunda, pé direito ao fundo e cá vai… power slide de traseira, derivando na areia, dobra-se todo de rabo para a direita, alinha a frente com a saída, e rasga para sair com os assobios do pessoal no passeio.
Bip! Bip! E a buzina de Herbie despede-se de mais uma noite de glória.
Já falta pouco, acelero para deixar os cães todos do bairro doidos a ladrarem, acordando toda a gente. Só dormem quando eu dormir!
E pronto, mais um suave regresso: Olho o mostrador e fez 20 km em 23 minutos, média de 52,17 km/h.
Ou seja, se fosse um Rallye de Clássicos teria que ser assim sempre. Se houvesse ali um controle, ainda tinha 1 minuto livre antes de controlar ao minuto 24, para dar os 50 km/h certos da carta de prova. Seria o suficiente para limpar o vidro, e verificar, por exemplo, se mantinha todas as luzes operacionais, ou beber água. Para xixi já precisaria de 2 minutos, por isso teria que esperar por outra oportunidade.
A média usual anda actualmente muito puxada para os 50 em vez dos anteriores 45, por isso é preciso assapar e dar fogo no animal.
Assim, consigo treinar para rallyes de antigos no quotidiano, mantenho-me em forma, atento e perspicaz, paradoxalmente aumentando a segurança da condução, pois desatenção é igual a perigo.
Permite treinar o desafio da qualidade global, nas diversas vertentes que englobam a arte de bem conduzir, com estratégia, conhecimento do material, atenção aos outros concorrentes, percepção dos limites da via, avaliação do estado e circunstâncias do momento, numa interacção global que exige o máximo de nós.
Já na garagem, cheiro o motor e nada de anormal: ele gosta de desafios, e sente saudades de alguma prova, e de ter números colados na porta…
Sorrio ao deixar o carro. Amanhã há mais…"
texto por Miguel Brito ( o Guru )
Mais um delicioso relato do Guru. Podem seguir o tópico original: Expresso de Lordemão aqui.
